Imagem distante de um monte com turbinas eólicas lado a lado, ao entardecer. Vemos um céu azul escuro e nuvens alaranjadas.

Além da descoberta do vento

O ensino e a aprendizagem a partir da elaboração de projetos, com instrumentos que despertassem a curiosidade dos alunos, foram a solução encontrada pelo professor de Matemática Aristides Praxedes ao se deparar com uma turma extremamente indisciplinada.

Por Aristides Praxedes Dias Neto em set 04, 2020

A ideia foi executada por meio da criação do projeto “Além da descoberta do vento”, desenvolvido em uma estação meteorológica. Nesta, oficinas foram desenvolvidas, nas quais os alunos puderam descobrir e explorar as ferramentas disponíveis com o intuito de compreender e aprofundar os conceitos matemáticos, dos modelos mais rústicos aos mais elaborados.

A primeira foi a oficina de anemometria. Nessa tarefa, os alunos utilizaram cata-ventos de papel para entender o funcionamento de um anemômetro, além de poderem observar figuras geométricas. Eles contaram as rotações do objeto em intervalos de tempo determinados, registrando as informações obtidas, de forma organizada, em tabelas e, a posteriori, em gráficos de linhas. Esta atividade também foi significativa para que os alunos trabalhassem a conversão da velocidade do vento de m/s para km/h.

Duas imagens uma ao lado da outra. Na imagem da esquerda, vemos uma aluna de costas analisando uma imagem em um quadro de sala de aula. À direita, uma foto de tela de computador com um programa analisando espectro de cores.
Duas imagens uma ao lado da outra. Na imagem da esquerda, vemos uma aluna de costas analisando uma imagem em um quadro de sala de aula. À direita, uma foto de tela de computador com um programa analisando espectro de cores.

À esquerda, estudante realizando atividades no quadro da sala de aula. À direita, imagem de programa utilizado em oficinas para confirmar hipóteses dos estudantes.

A oficina seguinte foi a de pluviometria. Com o objetivo de desenvolver modelos manuais e automáticos do pluviômetro de báscula, feitos com garrafas PET, de início, os alunos construíram modelos de papel destes objetos. Trata-se de uma atividade que requer muita habilidade manual, porque devem ser feitos movimentos delicados para colar as peças e vincar o papel corretamente. Estes modelos foram utilizados para explorar o funcionamento do equipamento antes de obterem os resultados finais com as garrafas. Além disso, o estudo de escalas, conceitos de razão e proporção, ângulos, linhas paralelas e perpendiculares e dimensões também foram explorados. Ainda nessa etapa, os alunos produziram uma biruta, utilizando régua, esquadro de 60°, borracha e meio lápis. Esta última atividade consistia em aprender a localizar o Norte real do planeta para que pudessem registrar a direção do vento.

“O objetivo [do projeto] foi mostrar aos diversos atores sociais, como professores, alunos e pais, a importância de aprender ciência e tecnologia para o futuro profissional dos estudantes, e também transmitir efetivamente o conteúdo abordado pela disciplina”, disse o professor Aristides. Desse modo, os resultados do projeto foram expostos em oficinas de sensibilização à comunidade escolar, pais de alunos, além de outras instituições escolares. O projeto permitiu que o professor pudesse ressaltar aos pais a importância do cuidado para com o futuro profissional dos alunos, mas também ressignificou a matéria, pois os alunos demonstraram interesse por Matemática e, ainda mais significativo, o comportamento em sala de aula mudou para melhor.

Depoimento do professor Aristides Praxedes Dias Neto sobre a participação no Prêmio Shell de Educação Científica

Com a participação no Prêmio Shell de Educação Científica, sinto-me mais cuidadoso e criterioso ao planejar aulas e atividades, além de disponibilizar mais tempo a essa tarefa. Também busco valorizar mais o interesse e a evolução pessoal dos alunos, embora um dos benefícios não possa ser aferido objetivamente, que é ver o orgulho dos alunos ao vencerem cada etapa. O Prêmio me fez perceber que, intuitivamente, trabalhava com aspectos da metodologia STEM; depois disso, decidi que quero me especializar na área para avançar profissionalmente, mas também para ampliar o acesso a esse sistema no Brasil.

A viagem a Londres me proporcionou experiências culturais e científicas únicas, o que é inesquecível. Agora, qualquer referência à cidade me faz rememorar estes momentos e querer voltar para conhecer mais. De fato, o Prêmio Shell me incentivou a crescer na profissão e continuar formulando projetos, como o de exploração de minerais preciosos em Marte que tenho desenvolvido com uma turma do 7º ano, em 2020, para estudar técnicas de contagem, construção de tabelas de frequências, gráficos de linhas, barras e setores.

Mini-bio do Autor

Aristides Praxedes Dias Neto, foi 1º colocado do Prêmio Shell de Educação Científica 2019, na categoria Ensino Fundamental – Rio de Janeiro. O trabalho foi desenvolvido na Escola Municipal Antonino Arcanjo Lopes, município de Paraíba do Sul (RJ).

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