Imagem de experimento em laboratório. Um béquer de vidro transparente com liquido incolor, aquecendo um tubo de ensaio com um líquido verde translúcido.

Da lama ao tratamento de águas contaminadas: inovação e sustentabilidade de mãos dadas com a escola

Nas últimas décadas, a poluição do ecossistema aquático por efluentes industriais e domésticos tem aumentado gradativamente, e uma das substâncias que causam um grande impacto são os corantes sintéticos, classificados como “contaminantes emergentes”.

Por Júlia Raquel Peterle Monteiro de Barros em set 09, 2020

No entorno da escola Irmã Maria Horta, localizada no bairro Praia do Canto, há rios e praias que encontram-se contaminados por corantes. Muitos pescadores dependem destes recursos hídricos para a sua sobrevivência.

Procurando melhorar o ensino-aprendizagem de química e inserir a cultura da inovação na escola, a professora Júlia Raquel Peterle Monteiro de Barros desenvolveu a proposta de um tratamento para a degradação de corantes em sistemas aquosos, utilizando um processo oxidativo avançado (POA) e tendo como catalisador um material sintetizado a partir da lama do desastre ambiental ocasionado pelo rompimento da barragem de Fundão (MG). O POA escolhido para o tratamento foi a reação foto-Fenton, de baixo custo e fácil aplicação.

Segundo a professora, "é um projeto científico inovador, que alinha uma mudança de cultura dentro da escola aos valores de autonomia, colaboração e experimentação; utiliza um catalisador sintetizado de um resíduo sólido (lama) oriundo de uma grande tragédia ambiental do Brasil, dando um destino sustentável para este resíduo; faz uso de metodologias ativas de ensino em um espaço em que predominam as aulas tradicionais".

O projeto se desenvolveu com as etapas de estudo, trabalho conjunto, pesquisa e cocriação e teve a sua práxis pautada em uma ética da responsabilidade e da relação dialógica. Os alunos, sentindo-se pertencentes àquela comunidade, se empenharam muito na busca de soluções que contribuíssem para a melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida de todos os moradores.

Os resultados mostraram que o projeto impactou positivamente os alunos e favoreceu a compreensão dos conteúdos químicos, melhorando a qualidade da aprendizagem, a motivação para os estudos e aumentando o interesse por pesquisas e práticas científicas. O tratamento proposto para a redução dos corantes na água se mostrou eficiente nas condições analisadas, podendo, certamente, beneficiar toda a comunidade em um futuro próximo.

Depoimento do professora Júlia Raquel Peterle Monteiro de Barros sobre a participação no Prêmio Shell de Educação Científica

O Prêmio Shell de Educação Científica é a minha maior realização profissional até hoje, fruto da dedicação em algo que acredito.

Utilizar o rejeito de um acidente tão grave que foi o desastre ambiental de Mariana para fazer algo bom, promovendo assim a sustentabilidade, foi um tema que causou um estranhamento, pois foi necessário demonstrar aos alunos que, por meio do conhecimento científico, é possível escrever uma nova história.

Tudo que é fora do modelo convencional, tradicional, é desafiador. A mudança de mindset é o principal desafio, uma vez que o professor ainda está preso ao modelo convencional. Além disso, boas parcerias fazem toda a diferença. Para o desenvolvimento deste projeto foi fundamental a parceria da Universidade Federal do Espírito Santo.

Mini-bio do Autor

Professora Júlia Raquel Peterle Monteiro de Barros, foi 1º colocado do Prêmio Shell de Educação Científica, 2018, na categoria Ensino Médio – Espírito Santo. O trabalho foi desenvolvido na Escola Estadual de Ensino Médio Irmã Maria Horta, município de Vitória (ES).

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