Na foto, vemos três mulheres animadas e sorridentes, enquanto posam por um selfie.

Letramento científico e as competências socioemocionais

Preparar as novas gerações para o futuro requer uma educação que seja capaz de desenvolver competências cognitivas e competências socioemocionais, ou, em outras palavras, uma educação integral.

Por Mozart Neves Ramos em ago 07, 2020

A chave para preparar as novas gerações para viver nos dias atuais e futuros é a educação integral. Num mundo cada vez mais complexo, dinâmico, diverso e incerto, é preciso preparar as crianças e os jovens para fazer e perseguir escolhas que resultem na sua autonomia e em realizações de seu projeto de vida. Isso envolve aspectos de autoconhecimento e de relacionamento com os outros e com o mundo ao seu redor. Requer uma educação que vá além do desenvolvimento de competências cognitivas, mas que seja capaz de introduzir, de forma articulada com elas, as chamadas competências socioemocionais, que incluem pensamento crítico, criatividade, autoconhecimento, colaboração, comunicação e abertura ao novo, entre outras. Essa articulação que se dá no contexto do currículo escolar – de forma intencional – é o que chamamos de educação integral.

Vários estudos mostram que alunos mais responsáveis, colaborativos, persistentes, curiosos e resilientes aprendem mais, concluem os estudos básicos na idade certa e saem da escola preparados para seguir aprendendo ao longo da vida; na idade adulta, tornam-se cidadãos mais conscientes e participativos, trabalhadores mais éticos, produtivos e realizados – enfim, seres humanos mais aptos a fazer boas escolhas e usufruir delas. Na perspectiva do incremento de tais competências e de um currículo mais flexível, que permita um maior diálogo com o projeto de vida do aluno, é que se insere o desenvolvimento de projetos no campo dos eixos formativos. É dentro desse contexto, portanto, que surge a importância de se implementar no âmbito do currículo escolar o chamado letramento científico.

Camargo Filho, Zompero e Laburú¹ têm ressaltado que as necessidades formativas dos alunos vêm sendo cada vez mais enfatizadas e direcionadas para a compreensão dos fenômenos naturais e sociais e para o entendimento das relações que se estabelecem entre a ciência, a tecnologia e suas implicações na sociedade, no intuito de prepará-los para a reflexão, as discussões e as tomadas de decisões concernentes aos impactos produzidos pelos avanços da ciência e da tecnologia na atualidade. Nesse aspecto, segundo eles, a escola assume papel preponderante, por propiciar aos estudantes a apropriação de conhecimentos, além de ensejar discussões acerca da prática social. Por isso, atualmente, um dos principais objetivos relativos à formação dos estudantes para o ensino das áreas que envolvem as ciências da natureza é o letramento científico – originário da expressão “alfabetização científica”.

É dentro desse cenário que entendemos a importância de incentivar os alunos a percorrerem os caminhos da metodologia científica, permitindo- -lhes assim desenvolver habilidades importantes para a vida: refletir, interpretar, raciocinar logicamente, ouvir a opinião dos outros, persistir, ser criativos, posicionar-se criticamente – além de trabalhar a leitura, a escrita e a aquisição de um novo e rico vocabulário. Essas habilidades fazem parte, como dissemos, de um conjunto de competências que compõem a educação integral e são essenciais para o sucesso na escola e fora dela.

A título de exemplo, apresentamos um esquema demonstrando como as competências associadas à abertura, à colaboração e à comunicação podem ser desenvolvidas por meio de um projeto vinculado ao letramento científico, conforme sugere o Instituto Ayrton Senna²:

Abertura Colaboração Comunicação
Querer descobrir coisas novas. Oferecer a melhor contribuição possível para a solução de um problema ou situação. Dialogar com alternância de momentos de escuta e de fala.
Fazer/levantar perguntas. Apoiar colegas na realização da experiência. Conversar a respeito dos fatos e respeitar a fala do outro.
Questionar temas diversos. Oferecer ajuda aos outros e aproximar-se deles. Fazer registros de suas observações e conclusões por meio de textos, frases, tabelas, gráficos e desenhos.
Alterar um procedimento, caso conclua que deva mudá-lo com base na análise de suas observações. Entender que o sucesso do experimento é de toda a equipe. Debater com os colegas as suas dúvidas e a viabilidade de suas conclusões.
Não ter medo de errar e corrigir seus erros para continuar suas investigações/ seu trabalho. Antecipar-se em buscar a solução de um problema que envolve a equipe. Argumentar sobre os resultados observados.

Referências:

1 CAMARGO FILHO, Paulo S. de; ZOMPERO, Andreia F.; LABURÚ, Carlos Eduardo. XI Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (XI Enpec), Florianópolis, SC, 3 a 6 de julho de 2017.

2 BARONI, Maria Regina M.; SOUZA, Kawan de; PAGOTTO, Marta Pagotto. Comunicação interna do Instituto Ayrton Senna, São Paulo, 2017.

Como dissemos, esse é apenas um exemplo, mas a escola ou a própria rede escolar deve definir outras competências que podem ser adicionadas a essas, tais como a criatividade e o pensamento crítico.

É importante tratar os alunos como “pequenos cientistas”, valorizando seus questionamentos e dúvidas, incentivando a participação de todos, promovendo intencionalmente a colaboração entre eles e dando abertura para todos emitirem suas opiniões. O letramento científico é, assim, um caminho importante para desenvolver competências que vão além das cognitivas.

Artigo originalmente publicado na edição 2018 da Revista do Prêmio Shell de Educação Científica.

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