Estudante observa seu experimento desenvolvido em um projeto STEM.

STEM: educar por projetos

Na educação básica, a matemática está autonomamente contemplada, e tecnologias acompanham as ciências. Mas, para completar STEM, falta a “engenharia”

Por Luís Carlos de Menezes em ago 07, 2020

STEM, sigla de Science, Technology, Engineering and Mathematics, é o novo paradigma da educação contemporânea. Porém não basta traduzir para ciência, tecnologia, engenharia e matemática sem compreender que não se trata de novo componente curricular, e sim orientação para atividades dos estudantes, envolvendo de maneira prática diferentes áreas do conhecimento. Na educação básica, a matemática está autonomamente contemplada; tecnologias acompanham as ciências, como as máquinas térmicas na física, a eletrólise na química e os medicamentos em biologia. Mas, para completar STEM, falta “engenharia”.

Para entender o que STEM significa na formação escolar é preciso interpretar com amplitude o “E” de “Engineering”. O que distingue cientistas e matemáticos de engenheiros e médicos é que os primeiros podem ou não lidar com problemas reais, ao passo que enfrentá-los é a razão de ser dos outros profissionais. Da mesma forma, o “E” de “STEM” envolve saberes práticos e problemas reais, com engenharia em seu sentido mais amplo, de tratar sob diferentes perspectivas mobilidade urbana, comunicações, saúde pública, economia energética, proteção ambiental e outras questões.

E fazer parte da formação não significa STEM ser “ensinado” por professores a seus estudantes, e sim esses, com boa autonomia, mobilizarem conhecimentos escolares em projetos coletivos com interesse real que escolham ou que lhes sejam apresentados. Quando escolas ou instituições afins dispuserem de laboratórios, oficinas ou onde se possa dispor de instrumentos para, por exemplo, fazer desmontes analíticos de motores e instrumentos, projetar, montar e manejar mecanismos e sistemas robóticos, comparar eficácia energética de equipamentos, combustíveis ou mesmo alimentos, conceber e criar circuitos elétricos ou de fibras óticas a laser, acoplar câmeras e outros dispositivos a sistemas digitais, estudantes poderão conduzir projetos ambiciosos para propor dispositivos de segurança, compensar deficiências sensoriais, orientar práticas de consumo, conceber novas formas de comunicação, entre tantas outras possibilidades.

Mas é possível incorporar STEM a práticas escolares, mesmo quando tais laboratórios e oficinas não estejam disponíveis, e pode-se ilustrar isso com exemplos de temáticas como energia e radiações, inspiradoras de projetos que podem ser colocados em prática com estudantes de qualquer escola.

Fazer parte da formação não significa stem ser “ensinado” por professores a seus estudantes, e sim esses, com boa autonomia, mobilizarem conhecimentos escolares em projetos coletivos com interesse real que escolham ou que lhes sejam apresentados.

Envolvendo energia, um grupo de estudantes analisaria contas de energia elétrica e de gás de residências, verificando que equipamentos consomem mais, comparando custos de banhos quentes em aquecimento elétrico ou a gás, e verificando em quanto tempo a economia de uma amília pagaria a diferença de preço entre um chuveiro elétrico e um aquecedor a gás. Outro grupo compararia o consumo energético de diferentes lâmpadas, entendendo a razão para as incandescentes terem sido proibidas e verificando a economia mensal de seu município se passasse a usar LED (diodos emissores de luz) em toda a iluminação pública, e poderia ainda analisar as opções de energia da própria escola ou de uma padaria próxima, para verificar e propor alternativas mais eficazes e econômicas.

Envolvendo as várias formas de radiação, as investigações levariam a compreender a opção por uma delas em cada atividade. Um grupo de estudantes buscaria compreender o uso de radiofrequência em telefones sem fio e chaves eletrônicas de automóveis, ou o uso de infravermelho em controles remotos de televisores, percebendo que infravermelho não atravessa paredes nem outras superfícies. Outro grupo questionaria por que, em fornos de micro-ondas, copos de vidro não se aquecem se estiverem secos, ou por que muitos materiais plásticos não podem ser colocados nesses fornos, ou ainda que risco haveria se funcionassem de porta aberta. E em visita monitorada a hospitais, questionariam quando e por que se utiliza, em diagnósticos e terapias, raio X, ultrassom, ressonância magnética ou outras radiações.

Os exemplos mostram que STEM também pode ser feito sem se dispor de instrumentos, ainda que seja vantajoso e recomendável que haja laboratórios e oficinas. Porém, com ou sem eles, seria interessante que os grupos de estudantes discutissem o sentido prático e os resultados de seus projetos com os demais colegas. Em qualquer caso, o que precisa ficar claro é que STEM é base para projetos, ou não significa nada e, aliás, muito menos deve motivo para mais aulas expositivas!

Artigo originalmente publicado na edição 2018 da Revista do Prêmio Shell de Educação Científica.

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